
Acordando em um quarto de hospital novamente, sinto meu pulmão dolorido por causa do estilhaço. A única coisa que me lembra que ainda estou vivo. As explosões em meio à chuva amedrontam as enfermeiras, mas eu já me acostumei. Não adianta de nada olhar pela janela, se tudo que é possível ver é destruição e caos.
Um médico sentado no sofá com uma garrafa de álcool de cozinha chora baixinho enquanto olha para uma fotografia mofada. Uma mulher repousa em uma cadeira de rodas enquanto a enfermeira troca calmamente o curativo da perna amputada. Apenas a fumaça das bombas e o cheiro de pólvora se igualam em intensidade ao sofrimento dessas pessoas. Mutilados e traumatizados, os pacientes se ajudam mutuamente enquanto tentam atenuar a própria dor.
A guerra é o martírio do povo, a dor mais profunda, e quem realmente sofre são os civis, o povo, aqueles que não querem ter nada a ver com isso. Na guerra, você morre como um cão. Isso é o que não me contaram antes da primeira bomba cair, antes da primeira bala ser disparada. Antes de toda essa dor...
Um homem entra gritando desesperado com uma criança chorando em seus braços. Não sei bem o que ele diz à enfermeira, mas percebo o desespero em seus olhos. A criança deve estar doente. Remédios são caros, os médicos escassos, e mesmo o alimento é raro em meio ao confronto. Dificilmente a criança sobreviverá, e, pelas lágrimas nos olhos dele, e a expressão desolada da enfermeira, creio que ele já sabe disso. Enquanto tentam acalmar o pobre sujeito, um grupo de homens de farda vem em minha direção com um companheiro desfalecido pela dor. Não existem bons ou maus em um hospital, apenas vítimas. A cama ao meu lado serve de repouso ao homem de vestes camufladas que eles carregam. Consigo ver os soldados injetando morfina nas veias dele enquanto apertam o torniquete improvisado. Viro-me para o lado oposto enquanto sinto o cheiro da carne sendo cauterizada às pressas com uma tocha improvisada.
Será que algum dia isso tudo vai acabar?
Publicado no Ebook "Linguagens: múltiplos olhares, múltiplos sentidos: volume 5", da Univates.
